Quarta-feira, 27 de Julho de 2005

Palavras agudas e graves

As sequências consonânticas como “mn ou “pt”, objecto da Base IV do acordo ortográfico, constituem assunto que dá muito pano para mangas. Foram objecto de numerosos artigos neste blogue. Depressa chegaremos a outro assunto quente. Entretanto, demos uma vista de olhos por temas menos escaldantes.

Existem algumas (poucas) palavras agudas ou oxítonas terminadas em “e” e “o” com pronúncias ora abertas ora fechadas. Recorde-se que palavras agudas ou oxítonas são as que têm acento tónico na última sílaba, como, por exemplo, “café”. Essas palavras de pronúnca oscilante vêm, em geral, do francês. Poderão escrever-se com acento agudo ou circunflexo. São exemplos “croché” e “crochê”, “bebé” e “bebê”, “guiché” e “guichê”. São igualmente admitidas formas como “judo” a par de “judô” e “metro”, no sentido de “metropolitano”, a par de “metrô”. Os pares de cada uma destas formas têm o acento tónico em sílabas diferentes.

Falemos agora de palavras graves ou paroxítonas, isto é com o acento tónico na penúltima sílaba.

No começo do século XX o dicionário de Cândido de Oliveira, registava a ortografia “tênis”. Acabou por não vingar em Portugal, mas é a que se usa no Brasil. Para um pequeno número de palavras graves com oscilacões de pronúncia o acordo prevê ortografias duplas. São exemplos: “ténis” e “tênis”, “bónus” e “bônus”, “Vénus” e “Vênus”.

Os ditongos “oi” e “ei” em sílaba tónica de palavras graves não levam acento. “Intróito” passa a “introito”, “bóia” passa a “boia”. Os brasileiros deixam de pôr acento em palavras como “idéia” ou “assembléia”, as quais em Portugal não são acentuadas há muito tempo.

Esta regra é muito importante. Nas pronúncias cultas da língua os referidos ditongos têm oscilações de pronúncia. Os brasileiros acentuam o ditongo “ei” quando é aberto. Não haveria grande problema em palavras como “idéia” e “assembléia”. O pior é que no Brasil o ditongo “ei” de “europeia” é aberto e, por isso, de acordo com as suas regras actuais, os brasileiros escrevem “européia”, pondo um acento agudo numa vogal que para outros falantes do português é fechada. Igualmente escrevem “Coréia”. Passarão a escrever “Coreia”, continuando a pronunciar a palavra como actualmente.

Em Portugal, “dezoito” é “dezôito” no norte e “dezóito” no sul. “Comboio” e “dezoito” já não levam acento por causa de o ditongo “oi” ser aberto para uns e fechado para outros. O acordo vai mais longe e, eliminando alguns acentos, acaba com divergências ortográficas, algumas graves. O Brasil elimina mais acentos que Portugal.

No Brasil escrevem “enjôo” e “vôo”. Deixarão de usar o acento circunflexo. Não se vê a necessidade deste acento. Desaparecerá, assim, mais uma divergência.


Artigo escrito por João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 19:07
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Quarta-feira, 20 de Julho de 2005

Português – língua variada

A maioria das pessoas pensará que a língua portuguesa tem duas variedades: a brasileira e a falada em Portugal e nos PALOP e Timor. Pensa também que, com diferenças de sotaque, o português falado nos PALOP e em Timor vai manter-se igual ao de Portugal. Acha, igualmente, que os PALOP e Timor seguirão sempre Portugal no que diz respeito à ortografia e às normas gramaticais da língua portuguesa. Alguns acham até que somos donos da língua e os outros utilizadores devem seguir sempre o que for decidido ou usado em Portugal.

Em 1997 parti para Moçambique com muita curiosidade a respeito da situação e do papel da língua portuguesa nesse país.

Verifiquei não haver quaisquer intenções de substituição do português pelo inglês, mas reparei que a língua de Camões assume em Moçambique características próprias.

Em Moçambique existe em formação uma variedade da língua portuguesa, sendo já visíveis alterações em relação ao português europeu, as quais penso que estão para ficar, apesar de a televisão e a rádio portuguesas estarem presentes em força no país. Esta variedade da língua tem sido objecto de estudos como o da Prof. Perpétua Mendonça, autora, entre outras obras de “Português de Moçambique – Uma Variedade em Formação”. A expressão “Português Europeu” usa-se em Moçambique para designar o Português de Portugal. Para designar a variedade europeia e a moçambicana da língua usam-se as abreviaturas PM e PE.

Depois de dois anos em Moçambique, depois de ouvir muitas vozes dos PALOP nos telejornais da RTP-África e de ter visitado Angola, é claro para mim que não existe uma língua portuguesa mas várias, com um uma base comum e mutuamente compreensíveis mas com normas diferentes, algumas de momento ainda não escritas, ma mais cedo ou mais tarde traduzidas em gramáticas das diversas variantes.

As particularidades do Português de Moçambique não se limitam ao vocabulário, onde surgiram interessantes neologismos como “desconseguir”. Incluem alterações sintácticas, como, por exemplo, na frase “Isso deveria se fazer hoje”. Reparei, no entanto, depois de voltar de Moçambique, que essas formas também se ouvem em Portugal, mas em Moçambique ouvem-se e escrevem-se. Há verbos intransitivos usados como transitivos, como em “As cheias perigaram a nossa situação económica” ou “O treinador proliferou o meio-campo de jogadores”. Usa a voz passiva com o papel de sujeito indeterminado, como “Assim é que eu fui explicado” ou “Sou descontado no banco todos os meses”, em vez de “Assim é que me explicaram” e “Descontam-me no banco todos os meses”. É frequente uma frase como “Inicia aqui o programa dedicado à mulher” em vez de “Inicia-se aqui o programa dedicado à mulher”. Aliás, esta construção é muito vulgar noutros países lusófonos de África. Frases como as apontadas ouvem-se da boca de pessoas cultas, algumas das quais educadas no tempo do sistema colonial.

Estas conclusões, talvez chocantes a princípio, não devem surpreender. Todas as línguas faladas em diferentes países e continentes têm variantes. Não vemos isso reflectido em aplicações informáticas em que se pode escolher entre vários tipos de espanhol ou de inglês?

Temos de nos preparar para a ideia de que, à semelhança do Brasil, Angola, Moçambique e outros países terão variedades do português com diferenças mais ou menos profundas em relação ao português europeu, as quais se poderão traduzir em normas gramaticais próprias. Também temos de nos preparar para a ideia de que esses países não nos considerem como guias linguísticos ou donos da língua portuguesa.

Sei que isto é um osso duro de roer para muita gente, mas, goste-se ou não, trata-se dum processo imparável.

Voltaremos ao assunto.



Artigo escrito por João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 16:51
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Terça-feira, 12 de Julho de 2005

Sequências variáveis (7)

Em artigos anteriores temos vindo a falar das sequências “cc” (segundo “c” com som “ç”), “pc” (segundo “c” com som “ç”), “ct”, “cç”, “pç” e “pt” em que a primeira consoante umas vezes se pronuncia outras não. O essencial já foi dito. Acrescentemos só mais dois pontos.

“Facto” como se escreverá de futuro? Andaram para aí os profetas da desgraça a dizer que se escreveria “fato”. Isto é um disparate. Em Portugal pronunciamos “fakto”, logo escreveremos “facto”. Os brasileiros não pronunciam o cê, logo não o escreverão. É exactamente o contrário do que acontecerá com “cacto”, em que o que o cê se pronuncia lá e é mudo cá. Por isso, se escreverá “cacto” no Brasil e “cato” em Portugal.

O desaparecimento dum pê obriga um eme anterior a passar a ene. Assi, por exemplo, a ortografia variante de “peremptório” é “perentório”.

Existem outras sequências de duas consoantes em que a primeira umas vezes se lê e outras não. Como era de esperar, o acordo ortográfico estabelece ortografias duplas para estes casos. Vejamos quais são estas sequências e apresentemos exemplos de cada uma delas:

-- Sequência “bd”: “súbdito” e “súdito”

-- Sequência “bt”: “subtil” e “sutil”

-- Sequência “gd: “amígdala” e “amídala”

-- Sequência “mn”: “omnipotente” e “onipotente”, “amnistia” e “anistia”, “indemnização" e “indenização”

-- Sequência “tm”: “aritmética” e “arimética”

Em todos os exemplos apontados a primeira consoante pronuncia-se em Portugal, mas no passado nem sempre assim foi.

Como se sabe, há na língua portuguesa palavras que vieram do latim por via culta e outras que recebemos por via popular. São exemplos“herbanário” e “ervanário”.

As palavras destas sequências sem a primeira consoante, ou muitas delas, são mais antigas e introduziram-se em Portugal por via popular. Encontram-se em escritores dos séculos XVI e XVII. Não há razão para afirmar que há nestas sequências ortografias mais correctas que outras. Seria como escolher o mais correcto entre “ervanário” e “herbanário”. Existem ortografias que variam de uso com o país, o que é uma coisa diferente.



Artigo escrito por João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 15:22
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Quarta-feira, 6 de Julho de 2005

Sequências variáveis (6)

Continuemos a falar das sequências “cc” (segundo “c” com som “ç”), “pc” (segundo “c” com som “ç”), “ct”, “cç”, “pç” e “pt” em que a primeira consoante umas vezes se pronuncia outras não.

O acordo ortográfico estabelece para estas sequências ortografias duplas. Assim por exemplo, teremos as ortografias “aspeto” e “aspecto”. A primeira será usada por quem não pronuncia o cê, o que é o caso dos portugueses e de muitos brasileiros. A segunda será utilizada por quem pronuncia o cê, o que se passa com a maioria dos brasileiros.

Esta regra do acordo irrita muita gente que não gosta de ortografias duplas. O Prof Freitas do Amaral perguntou onde estava a unificação.

O que se rebelam contra as ortografias duplas resultantes do acordo não reparam que já existem dezenas – dezenas, repito – de ortografias duplas. São exemplos “ámen” e “amém”, de que falámos no último artigo. “Cálix” (pronunciado “cális”) e “cálice”, “bêbado” e “bêbedo”, “rotura” e “ruptura” são outros. O acordo ortográfico acrescenta um pequeno número de grafias duplas às dezenas que já existem.

Quanto à unificação, preocupação de Freitas do Amaral, não está escrito em nenhuma parte do acordo ortográfico que ele visa uma total uniformização. Aliás, ela já não existe hoje.

Por que razão “aspecto” se escreve em Portugal com um cê. Por vir do latim “aspectu”? Não, porque, se fôssemos atender à ortografia, então teríamos de escrever “aflicto” e “diccionário”. Por causa da pronúncia? Também não. Por coerência com algum derivado em que o cê se justificaria – recordemos “reto” e “rectângulo”? Não, porque não tem derivados. A razão é que no Brasil existem pessoas que dizem “aspekto”.

Teria alguma lógica abolir aquelas consoantes que nunca se lêem – o que já devia ter acontecido há muito - e manter sempre aquelas que se pronunciam algumas vezes e outras não? Nenhuma. Obrigaria a ser enciclopédico. Faz lembrar o tempo em que “toda” se escrevia “tôda” porque existe “toda” com “o” aberto para designar um pássaro da América do Sul.


Artigo escrito por João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 18:16
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