Segunda-feira, 28 de Março de 2005

Eliminação de consoantes mudas (4)

Alguns ou muitos dos defensores dos cês e pês mudos acham que tais letras se devem manter por uma questão de harmonia com outras línguas latinas. Não podiam arranjar argumento mais idiota e ridículo.

Antes do mais, a ortografia da língua portuguesa não tem que se estabelecer de acordo com as de outras línguas. Estão a ver algum espanhol ou francês a dizer que se deve manter ou abolir uma letra ou um acento por razões de harmonia com o português? Por outro lado, a ortografia do português tem uma lógica que não é mesma doutras línguas. Por exemplo, o francês segue muito de perto a etimologia; é por isso que tem muitas palavras com efes, emes e enes dobrados e com o dígrafo pê-agá – como nós antes de 1911. Vamos voltar a escrever “Prohibido affixar annúncios” para sermos coerentes com o francês?

Em italiano o agá inicial praticamente foi eliminado. Seria uma excelente ideia harmonizar o português nesse ponto com o italiano e também acabarmos com o agá inicial. Trata-se duma opinião evidentemente não partilhada pelos defensores dos cês e pês mudos, para quem a semelhança com as outras línguas latinas só se invoca quando dá jeito.

Falando ainda do italiano, o Prof. Vitorino Magalhães Godinho afirmou não perceber a má vontade contra as consoantes dobradas, afirmando que o italiano está delas cheio. No que ao português diz respeito esse reputado professor referia-se às sequências “cc” e “cç” em que o primeiro cê não se pronuncia, como nas palavras “accionista” e “acção”. O professor mostrou não saber nada de italiano. Nessa língua as consoantes podem ser dobradas, mas isso alonga-lhes a pronúncia. “Giovanni”, pronunciado “djòván-ni” e equivalente a “João”, é diferente de “giovani”, que se pronuncia “djóvani” e significa “jovens”. Em “Giovanni” o duplo ene cria uma pronúncia alongada ao passo que o ene simples de “giovani” se pronuncia com brevidade.

Voltemos às consoantes mudas. Para sermos coerentes com o espanhol e com o francês voltaríamos a escrever “diccionário”, “victória”, “accidente”, “producção”, “producto”, “estructura” e “aflicção”. Alguém interessado em termos mais consoantes mudas para ficarmos mais perto do espanhol e do francês?

“Projecto” precisa do cê por coerência com outras línguas latinas? Em francês escreve-se “projet” e em italiano “progetto”, ao passo que em espanhol existe “proyecto” Para sermos parecidos com fanceses e italianos eliminamos o cê. Mantemo-lo se quisermos semelhança com o espanhol. Em que ficamos?

“Objecto” tem de ter um cê por uma questão de harmonia com outras línguas? Não será com o francês, em que se escreve “objet”, nem com o espanhol com o seu “objeto” nem com o italiano, em que se escreve “oggetto”. Talvez o cê seja necessário por coerência com o romeno, que também é língua latina; com as línguas mais próximas do português não é.

Só alguém mal informado ou cego pelo sectarismo é que pode invocar a semelhança com outras línguas para manter cês e pês mudos. Se os querem manter, arranjem argumentos inteligentes.
publicado por João Manuel Maia Alves às 19:16
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Segunda-feira, 21 de Março de 2005

Eliminação de consoantes mudas (3)

Os partidários da conservação de consoantes mudas em palavras como “factura” ou “baptismo” dizem que elas fazem falta para abrir a vogal anterior. “Tracção” e “acção”, por exemplo, necessitam, segundo tais pessoas, do primeiro cê para se pronunciaram “tràção” e “àção”. Se é assim, por que razão “inflação”, com a pronúncia “inflàção”, só tem um cê?

“Tracção” e “acção” derivam das palavras latinas “actione” e “tractione”, respectivamente. Por sua vez, “inflação” vem do latim “inflatione”. Por aqui se vê que o cê mudo de “acção” e “tracção” não se justifica somente por questões de pronúncia mas também por motivos da etimologia das palavras, isto é a sua origem noutras línguas. Ora acontece que há muito a ortografia da língua portuguesa deixou de seguir rigorosamente a etimologia; é por isso que há muito escrevemos “produto” apesar de provir do latim “productu”.

Se “inflação” se escreve só com um cê, não há grandes razões para que “acção” ou “tracção” precisem de dois.

Temem alguns que da eliminação de cês e pês mudos resulte o enfraquecimento das vogais colocadas antes. Já vimos que as catástrofes que se poderiam esperar de alterações anteriores não se verificaram e não há razão para se supor que o contrário aconteça no futuro. Por outro lado, se uma vogal tiver que emudecer, não é um cê ou pê que não se lê colocado antes que vai evitar esse emudecimento. Por exemplo, em “actual”, “tactear” e “exactidão” o cê não evitou o emudecimento do “a” anterior. Por outro lado, em palavras como corar ou padeiro existe um vogal aberta sem necessidade de escolta dum cê ou dum pê mudo.

Os amantes das consoantes mudas não se sentirão um tanto incomodados ao escreverem “actual”. Como é que justificam o cê?

Os argumentos contra a eliminação de consoantes mudas ou contra o acordo ortográfico em geral são fáceis de desmontar com um pouco de informação e uma cabeça para pensar.
publicado por João Manuel Maia Alves às 16:54
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Domingo, 13 de Março de 2005

Sic

Suponha que amanhã um jornal traz na primeira página esta notícia:

Treinador : “Os meus jogadores hadem dar muito que falar”.

O leitor perguntará se realmente o homem disse “hadem”. É verdade que tal palavra já foi usada por um ministro, mas tal não a torna aceitável. Terá havido um erro de comunicação? Será que ele disse “hão-de” mas o jornalista percebeu “hadem”?

Há uma maneira de indicar que uma citação indica o que realmente foi dito ou escrito , por estranho ou errado que pareça. Consiste em colocar entre parênteses ou colchetes a palavra “sic” depois das afirmações que levantam dúvidas. No caso presente a notícia poderia ser:

Treinador : “Os meus jogadores hadem (sic) dar muito que falar”.

Também poderíamos colocar “sic” entre colchetes e, então, a notícia sairia assim:

Treinador : “Os meus jogadores hadem [sic] dar muito que falar”.

“Sic” é uma palavra latina que significa “assim”. “Sic” numa citação pode traduzir-se por “assim mesmo” ou “tal e qual”.
publicado por João Manuel Maia Alves às 19:57
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Segunda-feira, 7 de Março de 2005

Eliminação de consoantes mudas (2)

A eliminação de cês e o pês mudos em palavras como “factor” e “adoptar” deixa muito boa gente num estado de angústia, como se o mundo estivesse para acabar. A questão merece ser estudada com a serenidade que tem faltado à maioria dos críticos do acordo ortográfico e que seria de esperar em pessoas de alto nível intelectual.

Muitos opõem-se à eliminação das consoantes mudas porque são contra toda a alteração ortográfica. Numa reunião muito concorrida que se realizou em Lisboa a propósito do acordo ortográfico uma jovem senhora muito intelectual decretou que em Portugal a palavra “projecto” tem de ter um “c” . Pessoas assim são imobilistas e opõem-se a qualquer mudança. Esta senhora, se vivesse em 1910, talvez se opusesse a “lírio” em vez de “lyrio” e “abismo” em vez de “abysmo”. Por incrível que nos pareça hoje, houve quem dissesse, lá por esses anos, que sem o “y” desaparece a noção de profundidade em “abismo” e “lírio” não tem graça.

Gente há que se opõe a alterações ortográficas por achar que a que usamos atingiu um nível de perfeição insuperável. Uma escritora de reconhecidos méritos mandou dizer na citada reunião que só a palavra “dançar” precisa de correcção – deveria escrever-se “dansar”.

Tudo isto é um completo disparate e deveria constar duma antologia de asneiras. Toda a ortografia tem muito de artificial e convencional. Nenhuma é perfeita e ainda neste artigo mostraremos exemplos eloquentes de deficiências da ortografia que usamos em Portugal.

Vejamos a razão de escrevermos “ator” no Brasil e “actor” em Portugal. Em 1911 fez-se uma excelente reforma ortográfica, que, mesmo assim, recebeu os maiores insultos. Infelizmente, Portugal aplicou a reforma esquecendo o Brasil. Isso abriu a porta a alterações unilaterais nos dois países. Em 1931 os dois celebraram um acordo com um texto muito breve. Quando se chegou à altura de ser aplicado, verificou-se que havia interpretaçãos diferentes do que se mantinha e do que se abolia. Foi assim que surgiram grafias diferentes como “fator” e “factor”. Felizmente, o acordo de 1991, tem um texto detalhado que elimina ou minimiza a margem para interpretações diferentes.

Qual a justificação para consoantes mudas como em “director” ou “adoptar”. Uma das razões é que a consoante muda serve para abrir a vogal anterior. Faz de acento grave, como se escrevêssemos “dirètor” ou “adòtar”.

Se era esta a função, então falhou redondamente em palavras como “actuar”, “actuação”, “accionista”, “actuário”, “actualidade” e "exactidão". Realmente, na pronúncia portuguesa destas palavras a vogal antes do “c” não é aberta. Por exemplo, dizemos em Portugal “âtuar” e não “àtuar”.

Há aqui duas conclusões a tirar. A primeira é que a ortografia que usamos não é perfeita e, se não é perfeita, pode ser mudada. A segunda é que é falsa uma das justificações para manter consoantes mudas. Estão lá para abrir vogais e às vezes não o conseguem.

Preparem-se para ler em próximos artigos afirmações capazes de revoltar e obrigar a pegar em armas os amantes dos cês e pês que não se pronunciem.
publicado por João Manuel Maia Alves às 17:47
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Terça-feira, 1 de Março de 2005

Catástrofes não confirmadas

Sempre que há alterações ortográficas, surgem os profetas da desgraça anunciando terríveis catástrofes em consequência das novas regras. Sendo muitos professores universitários, escritores e líderes de opinião, admiramo-nos de nunca ter dado pelo seu zelo em defesa da língua, vítima constante dos maiores atropelos. A sua preocupação parece resumir-se a evitar que se ponha de lado alguma letra ou acento e não é mais do que imobilismo disfarçado de prudência.

Vejamos algumas alterações ortográficas do passado que poderiam ter tido consequências funestas.

Noutros tempos escreveu-se “prègar um sermão” e “pregar um prego”. Desapareceu o acento grave de “prègar”. Aconteceu alguma coisa terrível? Não. Ninguém diz em Portugal “pr’ gar um sermão”.

Desapareu o acento grave de “mòlhada”. Aconteceu alguma coisa grave? Não. Distinguimos pelo contexto a pronúncia de “molhada”. Abrimos o “o” em “tudo à molhade e fé em Deus”, ao contrário do que acontece em “camisa molhada” .

Outros casos poderíamos apresentar de eliminação sem problemas do acento grave – em “jàmais”, por exemplo.

Eliminámos em Portugal o trema em palavras como “freqüente” ou “agüentar”. O que é que se perdeu? Nada. É verdade que aqui há uns anos ouvimos locutores da rádio e da televisão pronunciar “arguido” com a sequência “gui” pronunciada como em “guita”. Ao contrário do que agora sucede, a palavra era pouco conhecida. Hoje só se ouve a pronúncia correcta. O que espanta é que não haja em estações como a RTP ou a Rádio Renascença pessoas que evitem certos erros ou rapidamente os corrijam.

Em “fluidez”, “constituição” e outras palavras a sequência “ui” não é ditongo. Pronuncia-se “u-i”. Noutros tempos colocava-se um trema sobre o “i” para indicar que não havia ditongo. Acabou-se com este trema. “Constituïção” passou a “constuituição” sem se perder absolutamente nada.

Felizmente, as catástrofes previstas pelos adversários das reformas ortográficas não se confirmaram no passado e não devem ocorrer no futuro, mas podem ter a certeza que se oporão a qualquer mudança. São do contra porque são do contra. Por outro lado, certas letras que se mantiveram não conseguiram evitar aquilo que tinham por missão impedir, mas isso é assunto para outro artigo.
publicado por João Manuel Maia Alves às 20:13
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