Quinta-feira, 28 de Outubro de 2004

Usos do K, do W e do Y

O acordo ortográfico estabelece que as letras K, W e Y se usam nos seguintes casos especiais:

1) Em antropónimos (nomes de pessoas) originários de outras línguas e seus derivados tais como Franklin, frankliniano; Kant, kantistno; Darwin, darwinismo; Wagner, wagneriano; Byron, byroniano; Taylor, taylorista;

2) Em topónimos (nomes de lugares) originários de outras línguas e seus derivados como Kwanza; Kuweit, kuweitiano; Malawi, malawiano;

3) Em siglas, símbolos e em palavras adoptadas como unidades de medida internacionais: TWA, KLM; K-potássio (de kalium), W-oeste (West); kg-quilograma, km-quilómetro, kW-kilowatt, yd-jarda (yard); Watt.

A introdução destas três letras no alfabético português pelo acordo ortográfico não autoriza que se passem a usar de qualquer maneira. Não permite, por exemplo, a que, por ignorância ou desleixo, se escreva kilo em vez de quilo.

Infelizmente a incúria surge donde menos se espera. Vamos dar dois exemplos.

Um jogo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, associado ao Totoloto, chama-se Joker. À luz da actual ortografia e do acordo ortográfico, este Joker é um mamarracho linguístico de que a Santa Casa deveria ter vergonha. Tendo tanta gente culpa e responsável, por que razão é que o jogo não se chama Jóquer? Se a Santa Casa dá maus exemplos destes, o que é de esperar do cidadão comum?

No último campeonato europeu de futebol a mascote era um boneco chamado Kinas. Já no último campeonato do mundo, disputado na Coreia do Sul, a escolha do nome dos jogadores portugueses tinha sido bem infeliz – tugas, designação depreciativa dada nas antigas colónias africanas aos portugueses. Agora vieram com o Kinas, outro mamarracho. É pena que quem manda no futebol nacional, além de tratar de pontapés na bola, dê pontapés na língua.
publicado por João Manuel Maia Alves às 10:13
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Quinta-feira, 7 de Outubro de 2004

Fim da exclusão

A propósito da constituição do alfabeto consultámos um dicionário publicado à volta de 1890. Vejamos antes do mais como ele se descreve a si próprio:

OS DICCIONARIOS DO POVO
PROPAGANDA DE INSTRUCÇÃO
PARA PORTUGUEZES E BRASILEIROS
No. 1

DICCIONARIO DA LINGUA PORTUGUESA

ETYMOLOGICO
PROSODICO E ORTHOGRAPHICO

3ª. EDIÇÃO CORRECTA E AUGMENTADA

LISBOA
COMPANHIA NACIONAL EDITORA
SUCCESSORA DE
DAVID CORAZZI E JUSTINO GUEDES
SÉDE: RUA DA ATALAYA, 40 A 52, LISBOA

Deliciosa a ortografia da primeira folha desta obra com aproximadamente 114 anos! Ainda há pessoas como Freitas do Amaral que se opõem ao acordo ortográfico dizendo que a ortografia duma língua se estabelece lentamente ao longo dos séculos!

Neste “diccionário” o K e o Y são consideradas como pertencentes ao alfabeto português, que constava então de vinte e cinco letras. Quanto ao W, era considerado “lettra das línguas do Norte, e usada em portuguez unicamente nas palavras derivadas d’ essas línguas”.

Vemos então que o W já vivia na clandestinidade. A reforma ortográfica de 1911, já depois da implantação da República, expulsou o K e o Y do alfabeto português. Ficaram na mesma situação que o W. Assim chegámos ao alfabeto que aprendemos na escola e que, com o acordo ortográfico, vai acolher o K, o W e o Y, que deixam de ser letras estrangeiras para passar a ser, de pleno direito, letras do alfabeto português.

Por que razão teriam o K, o W e o Y sido excluídas do alfabeto português? Tentemos encontrar respostas a esta pergunta.

No referido dicionário do fim do século XIX muito poucas palavras começavam por K. Uma era kágado, substituída por cágado. Outra era kilómetro, substituída por quilómetro. O K foi substituído por C ou por QU.

A reforma de 1911, ampliou as razões para manter o W proscrito. Nas palavras começadas por W esta letra foi substituída por U ou V.

O Y era antes de 1911 uma letra muita usada em português. Era usada no início de muito poucas palavras como yttrio, nome dum metal. Era usada no meio de muitas palavras por razões de etimologia ou seja origem das palavras – physica, lyra, lyrio, physiologia, etc, etc. Foi felizmente substituído pelo i.

Com estas substituições as três letras proscritas ficaram reduzidas a abreviaturas internacionais como Kg e a palavras derivadas de certos nomes estrangeiros como kantiano, relativo ao filósofo alemão Kant. As três pareciam reduzidas a zero. Parecia lógico manter o W fora do alfabeto e dar a mesma sorte ao K e ao Y.

Noutros tempos, na escola primária, ouvia-se falar do K já tarde, quando se estudavam as medidas de comprimento, de superfície e de capacidade. Para quem saía do ensino primário, o K, o W e o Y eram letras praticamente quase inexistentes.

Para quem vivia nas colónias de África as três letras banidas podiam parecer familiares. Muitas pessoas tinham nomes africanos, frequentemente com uma ou mais das três letras, usuais nas línguas de África. Também em certas minorias como os indianos ou paquistaneses, numerosos antigamente em Moçambique, se atribuíam nomes com letras fora do alfabeto.

No Brasil a situação do K, do W e do Y é igual à de Portugal – letras não pertencentes ao alfabeto português, usadas em casos especiais.

O Anexo II ao acordo, que o explica, dá três razões para a inclusão do K, do W e do Y no alfabeto português:

1) Os dicionários já registam as três letras, existindo um razoável número de palavras do léxico português por elas iniciadas
2) Na aprendizagem do alfabeto é necessário fixar qual o lugar que elas ocupam
3) Nos países africanos de língua oficial portuguesa existem muitas palavras que se escrevem com aquelas letras.

A palavra léxico, usada no ponto 1, significa conjunto de palavras duma língua.

Relativamente ao ponto 3, diga-se que as três letras são usadas em muitos nomes e apelidos de pessoas e também em nomes de localidades, rios e províncias, como Kunene, Kwanza, Kuando-Kubango, Kuito e Soyo em Angola e Chokwè em Moçambique. Kwanza é também o nome da moeda de Angola. A abreviatura é Kz.

A merecida inclusão do K, do W e do Y no alfabeto não significa que se possam usar de qualquer maneira, mas isso é assunto para outro artigo.
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:07
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Sexta-feira, 1 de Outubro de 2004

23 ou 26 letras?

O acordo ortográfico tem vinte e uma divisões, chamadas bases. A Base I intitula-se “Do alfabeto e dos nomes próprios estrangeirados e seus derivados”. Examinemos a Base I no que se refere ao alfabeto.

Actualmente o alfabeto da língua portuguesa consta de vinte e três letras. Com a entrada em vigor do acordo ortográfico passa a ter as vinte e seis letras seguintes, cada uma delas com uma forma minúscula e outra maiúscula:

a A (á), b B (bê), c C (cê), d D (dê), e E (é), f F (efe), g G (gê ou guê), h H (agá), i I (i),
j J (jota), k K (capa ou cá), l L (ele), m M (eme), n N (ene), o O (o), p P (pê), q Q (quê),
r R (erre), s S (esse), t T (tê), u U (u), v V (vê), w W (dáblio), x X (xis), y Y (ípsilon),
z Z (zê).

A novidade está na entrada no alfabeto da língua portuguesa do K, do W e do Y, actualmente considerados letras estranhas ao alfabeto português e usados de modo limitado.

Diz o acordo que os nomes indicados para as letras – o acordo diz que são nomes sugeridos - não excluem outras formas de as designar. É uma nota importante porque há, por exemplo, quem ao M chame mê, o que não é incorrecto. Ao Y algumas pessoas, talvez idosas, chamam i grego. Sem este nome, seriam incompreensíveis os versos seguintes de João de Deus:

Aquele Manuel do Rego
É rapaz de tanto tino
Que em lírio põe sempre i grego
E em lyra põe i latino.

O nome capa para a letra K vulgarizou-se em Portugal. Noutros tempos o nome cá era usado em Portugal. No Brasil a letra chama-se habitualmente cá. O Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira era muito conhecido no Brasil pela abreviatura JK, pronunciada Jotacá.

O nome dáblio para W talvez desagrade a muita gente. Talvez preferissem vê-duplo ou duplo-vê. Gostaria de saber como lêem a marca de automóveis BMW. De harmonia com a base I, podem chamar-lhe esses nomes. Actualmente em Portugal a maioria das pessoas chama à letra algo parecido com dâbliu.

Curiosamente, o dicionário de português da Porto Editora dava ao W numa edição o nome dáblio e na edição seguinte a letra ficou sem designação.

No próximo artigo veremos as razões por que o K, o W e o Y foram introduzidas no alfabeto português. Veremos também outras questões relacionadas com o alfabeto.
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:24
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