Segunda-feira, 18 de Abril de 2005

O fundamentalismo ortográfico

Pelo Doutor Vital Moreira, professor de Direito da Universidade de Coimbra

O Acordo Ortográfico recém-assinado entre Portugal, o Brasil e os PALOP levantou em alguns sectores, da mais variada cor política e ideológica, uma onda de crítica e rejeição, que revestiu aspectos aspectos insolitamente apaixonados e radicais.

Um iracundo candidato à presidência da República (da direita, claro!) fez questão de manifestar o seu veemente “repúdio” por essa traição à língua-mãe; um breve e celebrado escritor proclamou a sua determinação em não respeitar o Acordo, decretando resistência civil; dois deputados, usualmente prudentes e esclarecidos, foram ao ponto de declarar a inconstitucionalidade da pretendida alteração da ortografia por acto de autoridade do Poder público; enfim, literatos, escritores, editores e livreiros, e vária gente avulsa mobilizaram-se em defesa da ortografia vigente, contabilizando prejuízos, inventariando cedências e profetizando as desgraças e catástrofes trazidas pela nova ortografia.

Com poucas excepções - em que sobressaem os ponderados argumentos de Óscar Lopes – a oposição e as reservas ao novo convénio ortográfico deixam muito a desejar em matéria de sensatez, razoabilidade, equilíbrio e ponderação. Por minha parte, não possuindo credenciais de linguísta nem de literato, devo confessar como simples cidadão utente da língua, que não entendo a razão para tanto alarido. Na minha opinião, modesta e profana, o Acordo Ortográfico, globalmente considerado – e tanto quanto é possível avaliar pelo que dele se conhece – não só não traz grande mal ao mundo, como pode reclamar-se de consideráveis vantagens sob o ponto de vista da unidade e da universalidade da língua portuguesa.

Descontado o atrevimento, proponho-me explicar a minha posição.

As vantagens e os prejuízos

O que até agora ninguém conseguiu provar é a utilidade em manter, dentro do espaço da língua portuguesa, um grande número de disparidades ortográficas entre a norma portuguesa e a brasileira, que não correspondem a significativas diferenças de pronúncia. Tenho por indiscutível que só existe vantagem em a língua ter, tanto quanto possível, a mesma ortografia em todos os países de que se tornou património comum. Se é possível eliminar consensualmente a maior parte dessas divergências ortográficas, não entendo como se pode deixar de ver aí um mérito, tanto em termos de comunicação recíproca no espaço lusófono, como também em matéria de valorização internacional da língua.

Considero sem valor o argumento adverso de que o Acordo não logra obter a eliminação total das disparidades ortográficas, mantendo duplas grafias num número significativo de palavras. Primeiro, é natural que se mantenham diferenças de grafia lá onde existem diferenças de pronúncia, tendo sido a tentativa de forçar uma unificação total uma das razões do falhanço do frustrado acordo de 1986; segundo, a impossibilidade de unificação absoluta não pode justificar que se mantenham desnecessariamente as diferenças supérfluas. Não existe nenhuma lógica em não se avançar para a convergência possível, só porque não se consegue chegar à meta dos 100 por cento. A redução das divergências, quando significativa, e desde que reconheça e delimite as diferenças remanescentes é sempre positiva. Além do mais, um acordo colectivo nesta matéria cria naturalmente um compromisso de renúncia no futuro a alterações ortográficas unilaterais, as quais no passado foram as principais responsáveis pela criação de diferenças entre as duas normas ortográficas oficiais.

Sem dúvida que uma reforma ortográfica não pode deixar de implicar perturbações e custos mais ou menos elevados em diversos sectores, sobretudo no domínio editorial e educativo. Mas não vejo razão para sobrestimar os custos da reforma. A última mudança ortográfica foi há menos de vinte anos, e não consta que tenha sido uma tragédia, nem quanto à reaprendizagem da escrita, nem em termos de renovação dos fundos bibliográficos. Neste aspecto, são obviamente legítimas as preocupações de editores e livreiros. Mas não há motivo para exagerar os seus prejuízos (uma zelosa defensora dos seus interesses chegou a escrever que as modificações ortográficas farão inutilizar até as fotografias, como se a ortografia afectasse as imagens...). E, sobretudo, não pode dar-se a impressão de que a indústria livreira só vê na actual diferença de normas ortográficas uma espécie de barreira alfandegária contra a concorrência do livro brasileiro.

De qualquer forma, os eventuais custos financeiros e outros não devem ser tão encarecidos, que prevaleçam sobre o interesse político e cultural do Acordo, em termos de unidade e promoção da língua portuguesa.

Nacionalismo e universalismo

Em muitas das tomadas de posição de princípio contra a reforma ortográfica é indisfarçável um mal confessado pressuposto nacionalista, sendo frequentes as menções às alegadas “cedências” perante os interesses brasileiros e à ideia de que o Acordo não é mais do que o alinhamento da ortografia portuguesa pela norma brasileira, implicando alterações apenas para Portugal. Por vezes, não falta mesmo algum rancor no modo como alguns adversários do Acordo se rebelam contra o facto de supostamente irmos passar a escrever “à brasileira”, quando afinal somos nós os Portugueses os criadores originários da língua.

A este respeito penso que, para além de o chauvinismo linguístico ser em geral mau conselheiro, há aqui dois equívocos óbvios. Primeiro, a língua portuguesa não é mais património português do que de qualquer dos outros países lusófonos, não sendo lícito reivindicarmos ou esperar que nos sejam reconhecidos privilégios ou poderes senhoriais, sobretudo quanto estamos longe de ser o mais influente e populoso entre os países de fala portuguesa. Segundo, não existe nenhum desdouro, num processo de negociações internacionais, envolvendo necessariamente transigências de parte a parte, e seria estulto exigir que as modificações tivessem de repartir-se de forma absolutamente paritária. Ora é indiscutível que o Acordo tanto afecte a norma portuguesa (caso da famigerada supressão das consonante mudas) como a norma brasileira (caso da eliminação de certos acentos e do trema) ou ambas ao mesmo tempo (como no caso das novas regras sobre o hífen).

O que importa considerar é se há alguma razão de orgulho nacional para preferir a autarcia ortográfica ao esforço de convergência e de construção de uma norma ortográfica comum a todos os países lusófonos.

Conservadorismo e modernização

Sucede que o argumento nacionalista não é frequentemente mais do que uma conveniente cobertura para um pouco estimável conservadorismo, que resiste por princípio a toda a mudança ortográfica e que faz por ignorar que a actual norma ortográfica é ela mesmo produto de anteriores reformas oficiais, inclusivamente em consequência de acordos luso-brasileiros. Sem elas continuaríamos a escrever pharmácia, lyrio, Emigdio, differença, e assim por diante ...

Sendo a ortografia em grande parte uma convenção, não vejo nenhuma razão para considerar intocável a actual norma, que seguramente não está protegida pela Constituição (pobre desta, se ela pudesse fundadamente ser invocada contra ou a favor de determinada norma ortográfica!...), nem está à guarda exclusiva de algum conselho de sábios, que à semelhança de qualquer fundamentalismo religioso, reserve para si a suprema autoridade sobre a pureza ortográfica da língua

Afinal, não passarão provavelmente muitos anos para que, olhando para trás, recordemos os actuais opositores à mudança ortográfica com a mesma condescendência com que hoje lembramos aqueles que há vinte anos se escandalizaram com o terem de passar a escrever pezinho e rapidamente em vez de pèzinho e ràpidamente...Em matéria de ortografia, nunca é demais uma boa medida de relativismo histórico e de sentido das proporções. E, acima de tudo, ao contrário do que pretendem os guardiões da actual ortografia, a defesa e promoção da língua portuguesa não se confunde com o conservadorismo da sua escrita. Pelo contrário, pode bem suceder que a vitalidade da língua exija uma atempada modernização ortográfica.


Este artigo foi publicado no Diário de Notícias de 1-1-1991


Este blogue expressa os melhores agradecimentos ao Doutor Vital Moreira por ter autorizado a publicação do seu artigo neste blogue. Agradecimentos também ao Diário de Notícias.
publicado por João Manuel Maia Alves às 15:01
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De João Carlos Reis a 17 de Setembro de 2015 às 07:47
Prezado João,
como introdução apenas e só gostaria de escrever que a esmagadora maioria dos argumentos a favor do aborto são, não direi facilmente, mas sim facilimamente desmontados e desconstruídos, como se pode ver pela parca constatação de factos abaixo mencionados...
«... da mais variada cor política e ideológica, ...» e «Um iracundo candidato à presidência da República (da direita, claro!)»... isto apenas e só denota o tendenciosismo e a parcialidade do sr. Vital Moreira... adiante...
«... a oposição e as reservas ao novo convénio ortográfico deixam muito a desejar em matéria de sensatez, razoabilidade, equilíbrio e ponderação.»... bem... se o sr. Vital Moreira não fosse parcial também teria que escrever que estes mesmos argumentos também se aplicam aos abortistas...
«..., o Acordo Ortográfico, globalmente considerado e tanto quanto é possível avaliar pelo que dele se conhece não só não traz grande mal ao mundo, ...»... é uma grande verdade, mas não é menos verdade que o que está em consideração não é o mundo, mas sim o Idioma Português que, esse sim, fica grandemente prejudicado e empobrecido na sua riqueza.
«..., como pode reclamar-se de consideráveis vantagens sob o ponto de vista da unidade e da universalidade da língua portuguesa.»... bem... aqui das duas uma: ou não leu o aborto ou então passou por cima das partes em que ele se contradiz, pois «unidade e da universalidade» é algo que ele não traz ao Idioma Português (sim, com iniciais maiúsculas para o Engrandecer, Enobrecer e Prestigiar, como preconiza o Formulário Ortográfico de 1943 no 6º ponto da sua Base XVI, bem como o Acordo Ortográfico de 1945 na sua Base XLII e não com reducentes iniciais minúsculas como defende o acordo de 1990 para o desprestigiar e nivelar por baixo).
«O que até agora ninguém conseguiu provar é a utilidade em manter, dentro do espaço da língua portuguesa, um grande número de disparidades ortográficas entre a norma portuguesa e a brasileira, que não correspondem a significativas diferenças de pronúncia.»... pois... como até agora ainda ninguém consegui provar na prática que este aborto unifica mais do que as divergências que introduz.
«Tenho por indiscutível que só existe vantagem em a língua ter, tanto quanto possível, a mesma ortografia em todos os países de que se tornou património comum. Se é possível eliminar consensualmente a maior parte dessas divergências ortográficas, ...»... hummm… é insistente, mas não é com este aborto que o consegue.
«Considero sem valor o argumento adverso de que o Acordo não logra obter a eliminação total das disparidades ortográficas, ...» Confirma-se… não leu o aborto, pois se o lesse saberia que o aborto não manteve as duplas grafias… aumentou-as, ou seja: generalizou aquilo que era excepcional.
«…, mantendo duplas grafias num número significativo de palavras.» A sério??? Mas os abortistas afirmam a pés juntos que este aborto é para escrevermos «todos da mesma maneira»…
«…; segundo, a impossibilidade de unificação absoluta não pode justificar que se mantenham desnecessariamente as diferenças supérfluas.» Bem… como em muitas outras áreas da vida, só não se atinge um objectivo se as pessoas não quiserem, pois se o quiserem, as coisas acontecem e até são melhoradas.
«…, em termos de unidade e promoção da língua portuguesa.» Hummm… há aqui qualquer coisa que não bate certo… ainda há pouco se falava em «… impossibilidade de unificação…» e agora fala-se em «unidade»… mas afinal em que ficamos??? Há aqui qualquer coisa que não bate certo… E já agora: como é que se faz a promoção de algo divergente???
«…, quando afinal somos nós os Portugueses os criadores originários da língua.» Quer queiramos, quer não, para o bem e para o mal o Idioma Português foi inventado aqui e não em mais lado nenhum. «…, sobretudo quanto estamos longe de ser o mais influente e populoso entre os países de fala portuguesa.» Aqui se nota a subserviência que infelizmente têm muitos portugueses desde há cerca de 200 anos, pois como todos sabemos a quantidade raríssimamente é sinónimo de qualidade, o que infelizmente acontece no presente caso. (continua)


De João Carlos Reis a 17 de Setembro de 2015 às 07:48
(continuação)
«… ao esforço de convergência e de construção de uma norma ortográfica comum a todos os países lusófonos.» Hummm… segundo o que o próprio Vital Moreira escreveu impõe-se uma pergunta: que norma ortográfica comum a todos os países lusófonos???
«Sem elas continuaríamos a escrever pharmácia, lyrio, Emigdio, differença, e assim por diante...» E qual era o problema de escrevermos assim??? Será que morria alguém???
«…, nem está à guarda exclusiva de algum conselho de sábios, que à semelhança de qualquer fundamentalismo religioso, reserve para si a suprema autoridade sobre a pureza ortográfica da língua.»… Se a hipocrisia pagasse imposto, este sr. tinha ido à falência. Quem é que elaborou este aborto??? Fui eu??? Foi o Sr.??? Que eu saiba não, pois quem o elaborou foi precisamente um conselho de «sábios», que à semelhança de qualquer fundamentalismo religioso, se esteve pura e simplesmente marimbando para a opinião da grande maioria dos falantes. Além do mais foram tão «sábios» e tiveram tanto brio profissional que o documento original do aborto tinha, entre outros, 23 erros ortográficos.
«…, recordemos os actuais opositores à mudança ortográfica com a mesma condescendência…» Por este pequeno exemplo se demonstra o ar de superioridade dos defensores do aborto, mesmo que este nivele por baixo o Idioma Português, como se os defensores do bom Português fossem desprovidos de sabedoria e/ou inteligência e os seus argumentos linguística e cientificamente comprovados não fossem válidos.
«Em matéria de ortografia, nunca é demais uma boa medida de relativismo histórico e de sentido das proporções.» Relativismo histórico??? Mas que relativismo histórico??? Sentido das proporções??? Mas que sentido das proporções??? Será que é o sentido das proporções em que servimos sempre de capacho diatribes alheias???
«…, a defesa e promoção da língua portuguesa não se confunde com o conservadorismo da sua escrita.» Mas que promoção da Língua Portuguesa é que se faz quando de 30 em 30 anos (média) estamos a alterar a ortografia??? «Pelo contrário, pode bem suceder que a vitalidade da língua exija uma atempada modernização ortográfica.» E eu que sempre pensei que a modernização estava relacionada com melhoria e subida de qualidade e não com nivelamento por baixo… mas pronto… é o servilismo que temos…


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. Convite

. Acordos de 1990 e 1945

. Boas notícias

. Notícias do acordo ortogr...

. Ortografia – uma convençã...

. Reformas ortográficas

. São Tomé e Príncipe ratif...

. Contracções incorrectas

. Guiné-Bissau e Acordo Ort...

. Cimeira e acordo ortográf...

.arquivos

. Maio 2010

. Março 2008

. Novembro 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds