Quinta-feira, 14 de Abril de 2005

Eliminação de consoantes mudas (5)

A palavra “recto”, no sentido, além de outros, de “justo” e “direito” vem do latim “rectu”. Não é só a razões etimolólicas que se deve o cê não pronunciado desta palavra. “Aflito” provém do latim “afflictu” e, apesar disso, não contém nenhum cê.

“Rectângulo” e “rectidão”, provenientes de palavras latinas com a sequência “ct”, mantêm na ortografia usada em Portugal um cê para abrir o “e” colocado antes. “Recto” mantém o cê por coerência com “rectângulo” e “rectidão”. Semelhantemente, “acto” tem um cê por coerência com “actuar”. Em “actuar” o cê é completamente disparatado porque nem se pronuncia nem abre o “a” anterior. Por isso, manter o cê de “acto” por coerência com “actuar” não tem pés nem cabeça.

É difícil explicar a uma criança de seis anos por que razão “acção” precisa dum cê para abrir um “a” quando “inflação” o dispensa. Também não é fácil de explicar por que razão o cê e o pê umas vezes se lêem e outras não. Pense-se em “pacto” e “acto”, por exemplo. Igualmente difícil é explicar por que é que para abrir uma vogal se usa umas vezes um pê e outras um cê. Por que razão não se escreve “bactismo” em vez de “baptismo” ou “apção” em vez de “acção”?

As razões para manter cês e pês que não se pronunciam não resistem a uma análise cuidada. Não desempenham nenhuma função útil. Só servem para desnecessariamente complicar.

Pode ser muito interessante discutir se se devem manter letras como o cê de “actor”. Pode sempre alinhar-se argumentos a favor e contra. No entanto, mais importante é discutir as vantagens dum acordo ortográfico. Não haverá vantagens em eliminar ou reduzir ao mínimo possível as divergências ortográficas? Tal implica, evidentemente, cedências de todas as partes – todos têm de aceitar alterações. No entanto, há gente para quem a ortografia em vigor é algo que atingiu a perfeição e, por isso, é intocável.

Este foi o último artigo sobre eliminação de consoantes sempre mudas em qualquer pronúncia culta da língua. Depressa vamos começar a tratar um assunto semelhante e ainda mais polémico.
publicado por João Manuel Maia Alves às 12:18
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