Segunda-feira, 2 de Agosto de 2004

Conservadorismo ortográfico

No dia 17-8-1901 o Diário de Notícias publicou a notícia que se segue.

O movimento em favor das classes trabalhadoras vae alargando cada vez mais, realisando, ou em via de realisar, algumas das suas mais legitimas aspirações. Até na Russia o governo imperial acaba de decretar que os operarios empregados nas fabricas do estado tenham direito a uma pensão, para elles ou para suas familias. Escrevemos aspirações legitimas, e muito de proposito, porque nem todos os numeros do programma socialista nos parecem exequiveis. Uns pairam nas regiões da utopia e nunca baixarão á esphera da realidade: são sonhos de phantasias ardentes ou promessas de prophetas embusteiros; outros, então, peccam pelo seu caracter antipathico, provocador e até odiento.

Foi mantida a ortografia (naquele tempo escrevia-se orthographia) em que o artigo foi escrito.

Várias palavras deste artigo estão escritas duma maneira diferente da actual. Repare-se, por exemplo, em antipathico e esphera.

A ortografia da língua portuguesa mudou bastante nas últimas décadas em virtude de diversas reformas. Talvez não acredite mas em 1931 ainda se escrevia sciência. Quem passeie por Lisboa com atenção a placas colocadas em prédios ou por cemitérios lendo inscrições tumulares não pode deixar de notar ortografias bem diferentes da actual com o uso do ph, de th, de eles e emes dobrados, do y, etc.

Apesar disto, certas inteligências querem apresentar-nos a ortografia como algo que vem de muito longe, talvez do Sr. D. Afonso Henriques de saudosa memória, algo intocável, uma espécie de manipanso que deveríamos adorar de joelhos.

Parece incrível que um homem como o Prof. Freitas do Amaral, eminente mestre de direito, tenha dito que a ortografia é algo que se estabelece longamente ao longo dos séculos. Pelo menos no que se refere à língua portuguesa tal afirmação está bem longe da verdade.

Homens eminentes podem dizer grandes disparates. Isto tem-se visto ao longo da história. Por isso, não temos que acreditar em tudo o que dizem sumidades, líderes de opinião e elites intelectuais. Ouçamos esta gente ilustre mas pensemos pela nossa cabeça.

A ortografia duma língua tem muito de arbitrário. Não existe nenhum sistema ortográfico perfeito ou definitivo.
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:07
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