Segunda-feira, 7 de Março de 2005

Eliminação de consoantes mudas (2)

A eliminação de cês e o pês mudos em palavras como “factor” e “adoptar” deixa muito boa gente num estado de angústia, como se o mundo estivesse para acabar. A questão merece ser estudada com a serenidade que tem faltado à maioria dos críticos do acordo ortográfico e que seria de esperar em pessoas de alto nível intelectual.

Muitos opõem-se à eliminação das consoantes mudas porque são contra toda a alteração ortográfica. Numa reunião muito concorrida que se realizou em Lisboa a propósito do acordo ortográfico uma jovem senhora muito intelectual decretou que em Portugal a palavra “projecto” tem de ter um “c” . Pessoas assim são imobilistas e opõem-se a qualquer mudança. Esta senhora, se vivesse em 1910, talvez se opusesse a “lírio” em vez de “lyrio” e “abismo” em vez de “abysmo”. Por incrível que nos pareça hoje, houve quem dissesse, lá por esses anos, que sem o “y” desaparece a noção de profundidade em “abismo” e “lírio” não tem graça.

Gente há que se opõe a alterações ortográficas por achar que a que usamos atingiu um nível de perfeição insuperável. Uma escritora de reconhecidos méritos mandou dizer na citada reunião que só a palavra “dançar” precisa de correcção – deveria escrever-se “dansar”.

Tudo isto é um completo disparate e deveria constar duma antologia de asneiras. Toda a ortografia tem muito de artificial e convencional. Nenhuma é perfeita e ainda neste artigo mostraremos exemplos eloquentes de deficiências da ortografia que usamos em Portugal.

Vejamos a razão de escrevermos “ator” no Brasil e “actor” em Portugal. Em 1911 fez-se uma excelente reforma ortográfica, que, mesmo assim, recebeu os maiores insultos. Infelizmente, Portugal aplicou a reforma esquecendo o Brasil. Isso abriu a porta a alterações unilaterais nos dois países. Em 1931 os dois celebraram um acordo com um texto muito breve. Quando se chegou à altura de ser aplicado, verificou-se que havia interpretaçãos diferentes do que se mantinha e do que se abolia. Foi assim que surgiram grafias diferentes como “fator” e “factor”. Felizmente, o acordo de 1991, tem um texto detalhado que elimina ou minimiza a margem para interpretações diferentes.

Qual a justificação para consoantes mudas como em “director” ou “adoptar”. Uma das razões é que a consoante muda serve para abrir a vogal anterior. Faz de acento grave, como se escrevêssemos “dirètor” ou “adòtar”.

Se era esta a função, então falhou redondamente em palavras como “actuar”, “actuação”, “accionista”, “actuário”, “actualidade” e "exactidão". Realmente, na pronúncia portuguesa destas palavras a vogal antes do “c” não é aberta. Por exemplo, dizemos em Portugal “âtuar” e não “àtuar”.

Há aqui duas conclusões a tirar. A primeira é que a ortografia que usamos não é perfeita e, se não é perfeita, pode ser mudada. A segunda é que é falsa uma das justificações para manter consoantes mudas. Estão lá para abrir vogais e às vezes não o conseguem.

Preparem-se para ler em próximos artigos afirmações capazes de revoltar e obrigar a pegar em armas os amantes dos cês e pês que não se pronunciem.
publicado por João Manuel Maia Alves às 17:47
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1 comentário:
De João Carlos Reis a 27 de Janeiro de 2016 às 15:38
A questão merece ser estudada com a serenidade que tem faltado a todos os feitores e abortistas, o que seria de esperar em pessoas de «alto» nível intelectual, pois infelizmente têm defendido o pouco defensável.
Já eu sou favorável a todo e qualquer tipo de mudanças... desde que sejam para melhorar o que quer que seja.
«Nenhuma é perfeita e ainda neste artigo mostraremos exemplos eloquentes de deficiências da ortografia que usamos em Portugal.» Pois... mas para ser justo também teria que mostrar exemplos eloquentes de deficiências na ortografia introduzida pelo novo aborto.
«Felizmente, o acordo de 1991, tem um texto detalhado que elimina ou minimiza a margem para interpretações diferentes.» Hummm... dê-me um exemplo...
«A segunda é que é falsa uma das justificações para manter consoantes mudas. Estão lá para abrir vogais e às vezes não o conseguem.» Pois... então não deve ser por esse motivo que os brasileiros, após terem retirado acriticamente as ditas consoantes mudas não alteraram a pronúncia da esmagadora maioria desses vocábulos... E não é «não conseguem»... é «alterações naturais da pronúncia dos vocábulos... e não artificias como este aborto implicitamente preconiza.


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