Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2005

H - essa vaca sagrada

Sabia que já se escreveu hombro? Não tinha qualquer base etimológica porque a palavra vem do latim umeru. Há pessoas que, sem necessidade, complicam a língua. Então não é que houve no passado pessoas que puseram um H no início da palavra é?

O H é uma letra bem esquisita. Caiu em espanhol, que vem do latim hispaniolu. Também caiu em erva mas mantém-se em herbáceo. Permanece em palavras derivadas do latim por via culta ou erudita, o que é uma coisa que pouco interessa ao utilizador normal da língua e leva a faltas de lógica como é existirem com o mesmo significado as palavras ervanário e herbanário.

Numa rádio local foi há anos dito que “o saramago é uma erva herbácea”. A frase é tola, mas mostra bem as incoerências do uso do H no princípio de palavras.

Quase de certeza o H se continuará a usar no início de muita palavra portuguesa ao longo dos séculos. Não há coragem nem vontade para o eliminar.

Os italianos escrevem umanità (humanidade), umore (humor), uomo (homem), omocida (homicida) e igiene (higiene). Em italiano muito poucas palavras começam por H e são todas ou quase todas de origem estrangeira. Se o português seguisse pelo mesmo caminho, talvez estranhássemos a princípio, mas, passado pouco tempo, não sentiríamos nenhuma falta. Se o H é desnecessário em desumano, não pode ser eliminado em humano? Faz alguma falta em espanhol? Alguém gostaria que se voltasse a escrever hespanhol?

Imaginem que alguém propunha a eliminação do H inicial. Cairia o Carmo e a Trindade. As pequenas alterações introduzidas pelo acordo ortográfico provocaram reacções violentas. Até houve quem, muito a sério, invocasse a constituição por achar que a ortografia faz parte do património da nação. Santo Deus! Acham que a constituição se deve preocupar com assuntos como a ortografia?

Os brasileiros eliminaram certas consoantes surdas em palavras como baptismo ou actor, mas relativamente ao H inicial têm sido atentos, veneradores e obrigados. Que eu saiba, nesse aspecto só diferem de Portugal na palavra húmido e seus derivados. No outro lado do Atlântico escrevem úmido, umidade, umidificar, etc mas escrevem, como nós, hora, horta, hemisfério e hélio.

O H inicial permanece intocável. Faz lembrar as vacas sagradas da Índia. Como são sagradas, não podem ser incomodadas mesmo que se deitem na rua e obstruam o trânsito.
publicado por João Manuel Maia Alves às 09:27
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