Domingo, 1 de Agosto de 2004

Alterações ortográficas no Brasil em 1971

Em 1971 o governo brasileiro do Presidente Emílio Médici introduziu alterações na ortografia usada no Brasil, que é, como se sabe, diferente da de Portugal e suas ex-colónias de África e da Ásia.

Uma das alterações consistiu na eliminação do acento grave e do acento circunflexo nos moldes daquela que dois anos mais tarde Marcelo Caetano viria a introduzir em Portugal e seus domínios ultramarinos de então.

Outra alteração consistiu na quase eliminação no acento circunflexo diferencial. Antes desta alteração escrevia-se no Brasil côrte com acento para se diferenciar de corte com o aberto. Escrevia-se êsse com acento circunflexo para se distinguir de esse, nome da letra s. O acento diferencial não foi eliminado na palavra pôde.

O acento circunflexo diferencial já tinha sido abolido em Portugal em 1945 e era responsável por à volta de 70% das diferenças de ortografia entre Portugal e o Brasil.

O acento diferencial parece muito lógico. Sem ele podemos ter de descobrir pelo contexto se um e ou o é aberto ou fechado, mas obriga a pessoa a ser enciclopédica. Nêle escrevia-se assim porque existe nele com e aberto. É o nome duma antiga moeda francesa e duma variedadede de arroz na Índia. Imagine-se uma pessoa dos nossos dias a ter que saber da existência da palavra nele com e aberto para decidir sobre o uso dum acento noutra palavra.

O governo brasileiro deu às editoras de livros e publicações quatro anos para o cumprimento da lei que introduziu estas alterações.

Curiosamente esta lei do governo brasileiro apoia-se num parecer conjunto da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa, de 22 de Abril de 1971. As alterações ortográficas introduzidas no Brasil em 1971 e em Portugal e colónias em 1973 foram com certeza concertadas entre as autoridades dos dois países. Não houve um tratado internacional entre Portugal e Brasil, assinado com toda a solenidade e pompa, estabelecendo as alterações, mas deve ter havido acordo para medidas legislativas convergentes. Na prática houve um acordo ortográfico, que funcionou com total eficácia. Isto prova que os acordos ortográficos não estão fatalmente condenados ao fracasso.

Quem parece ter ficado muito contente, apetece dizer vingado, com a eliminação do acento diferencial foi o Ministro da Educação do Brasil de então, Jarbas Passarinho, que num exame escreveu sem acento toda com o fechado, coisa que os professores não perdoaram. O jovem Jarbas, apesar de Passarinho, tinha esquecido que existe toda com o aberto, nome dum pássaro vulgar na América do Sul. E você sabia de tal pássaro? Foi muito bem eliminado o acento diferencial. Palmas para os que dum e doutro lado do Atlantico lhe puseram merecido fim!
publicado por João Manuel Maia Alves às 10:20
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2 comentários:
De João Carlos Reis a 3 de Setembro de 2015 às 00:57
Prezado João,
muito obrigado por concordar comigo quando digo que o Idioma Português está a ser nivelado por baixo quando retira acentos e as ditas consoantes mudas acriticamente...
Se não fosse o sr. eu não sabia que existia um pássaro com o nome de toda.


De João Carlos Reis a 14 de Setembro de 2015 às 01:17
Prezado João,
e por falar em ditadores: sabia que se o Getúlio Vargas não tem sido deposto, a Reforma Ortográfica de 1945 estava em vigor no Brasil???


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