Segunda-feira, 29 de Novembro de 2004

Viagem a 1929 (2)

Continuemos a nossa viagem a 1929, reparando nalgumas ortografias do “Almanaque Lello” desse ano.

--- Ponto de interrogação invertido ---

No almanaque encontra-se esta pergunta “¿Podem as fábricas não desfear a paisagem?”.

Há muito que o ponto de interrogação invertido, usado no início duma pergunta, acabou em português. A mesma sorte teve o ponto de exclamação invertido. Em espanhol, pelo contrário, continuam a ser usados.

Às vezes ainda se vê em Portugal o ponto de exclamação invertido. Um fulano vai a Madrid e vê o anúncio de “¡¡¡Grandes rebajas!!!” e toca a imitar os espanhóis. Assim aparecem os anúncios de “¡¡¡Sensacionais saldos!!!” e outros semelhantes.

--- Nomes de países e cidades ---

-“Moscou” era no almanaque a capital da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Hoje usa-se “Moscovo” em Portugal. No Brasil continua-se a usar “Moscou”. Lá e cá o habitante da cidade chama-se “moscovita”.
-“Pekim” – Hoje Pequim
-“Cambodge” – Hoje temos “Cambodja” e “Camboja”
-“Berne” – Hoje “Berna”
-“Amsterdam” – Também aparece no almanaque “Amsterdão”. Hoje usamos “Amesterdão” e “Amsterdão”. No Brasil usa-se “Amsterdam” e “Amesterdã”.
-“Yugo-eslávia” – Hoje usamos quase exclusivamente em Portugal a palavra “Jugoslávia” – ou usávamos porque o país desapareceu. No Brasil mantiveram-se sempre mais agarrados a “Iugoslávia” ou à variante “Iugo-eslávia”.
-“Roménia” e “România” – Aparecem as duas palavras; a segunda caiu em desuso.
-“Tchéco-eslováquia” – Não é engano. O acento agudo existe mesmo no almanaque, como existe igualmente em “tchéco”, palavra também constante na publicação. Hoje escrevemos e dizemos em Portugal “Checoslováquia” – poucas vezes porque o país já não existe. Também no Brasil se usa“Checoslováquia”. Durante muitos anos preferia-se no Brasil “Tchecoslováquia” e “Tcheco-eslováquia”, formas que tinham opositores. Os dicionários brasileiros nem sequer registavam a palavra “checo”. Parece que “Checoslováquia” e “checo” são agora as formas preferidas no Brasil.
-“Afghanistan” –Hoje dizemos e escrevemos “Afeganistão”. No almanaque também aparece o adjectivo feminino “afghã”; hoje escrevemos “afegão”no masculino e “afeg㔠no feminino.
-“Teheran”– Em Portugal usamos hoje “Teerão”. No Brasil usam “Teerã”, que parece ser uma forma mais de harmonia com “Teheran”.
- “Uruguay” e “Paraguay” – Estes são os nomes destes países na sua língua oficial – o espanhol. Hoje escrevemos “Uruguai” e “Paraguai”.
-“Egito” – Quando “Egipto” passar a “Egito” com o acordo ortográfico, estaremos a voltar a uma ortografia já usada, o que não impedirá os protestos dos contestatários de qualquer mudança.
-“Bahia” – Nome duma cidade e dum estado do Brasil. Mantém-se esta ortografia com base numa decisão da Academia Brasileira de Letras aplicável a nomes de localidades brasileiras muito antigos e consagrados pelo uso. Nem todos no Brasil concordam com esta ortografia, que não se usa em Portugal. No entanto, de “Bahia” forma-se o substantivo e adjectivo “baiano”, não “bahiano” – também de acordo com a mesma decisão.

--- Estrangeirismos ---

Do almanaque constam muitos estrangeirismos. No artigo anterior vimos vários referentes ao desporto que foram, entretanto, aportuguesados. Quem contesta as formas portuguesas encontradas para substituir essas palavras estrangeiras?

“Chauffeur” é um dos estrangeirismos que se pode encontrar no almanaque. Passariam mais de setenta anos sem a palavra dar lugar em Portugal a “chofer”. No Brasil esta palavra usa-se há décadas. Em Portugal a palavra foi aportuguesada só há três ou quatro anos quando o chamado Dicionário da Academia acolheu a forma “chofer”. Já não era sem ser tempo.

Use sem complexos “chofer”, “dossiê”, “robô” e outras palavras recentemente aportuguesadas em Portugal. Os aportuguesamentos encontram sempre resistência por mais lógicos que sejam.

--- Nomes de reis ---

No almanaque constam os nomes de vários reis. Uns foram traduzidos. É o caso de Jorge V, Eduardo VII e Alexandra, da Grã-Bretanha, Alberto I, da Bélgica e Afonso (Alfonso em espanhol) XIII, da Espanha. Outros ficaram como no original, casos de Wilhelmine, da Holanda, Victor Emmanuel III, de Itália e Haakon V da Noruega.
publicado por João Manuel Maia Alves às 15:24
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1 comentário:
De João Carlos Reis a 23 de Junho de 2015 às 07:27
Prezado João,
«Quem contesta as formas portuguesas encontradas para substituir essas palavras estrangeiras?» Eu contesto. Como já tive oportunidade de escrever, creio que nós deveríamos utilizar ou traduzir ao máximo possível as palavras estrangeiras. O que acontece é que para isso é necessário pensar e raciocinar... o que dá trabalho... É por causa de todo esse comodismo, laxismo e também porque é "fino", é "bem", é "chique" e afins que palavras como "chauffeur" (ou o seu aportuguesamento) são utilizadas em vez das suas equivalentes "motorista" ou "condutor"...
No que respeita ao nome dos monarcas, e continuando essa boa tradição, creio que deviam todos, desde que haja o equivalente Português, ser traduzidos.


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