Quarta-feira, 24 de Novembro de 2004

Viagem a 1929 (1)

--- Nota introdutória---

Fizemos uma consulta ao “Almanaque Lello” de 1929 e registámos algumas ortografias.

A ortografia do almanaque apresenta relativamente à de hoje diferenças certamente, mas sem comparação com a de antes da reforma de 1911. Um texto escrito na ortografia que a reforma de 1911 pôs de lado quase fere os olhos com as suas consoantes dobradas, com a abundância de palavras com Y e carradas de ortografias esquisitas como “archipélago” ou “rhetórica”.

Neste artigo apontam-se algumas ortografias constantes do almanaque, com comentários neste e em futuros artigos.

--- Acento diferencial ---

O almanaque contém muitíssimas palavras com acento circunflexo diferencial. Um exemplo é “Pôrto”. Naquele tempo escrevia-se assim o nome da cidade porque existe “porto”, com “o” aberto, do verbo “portar”.

Já vimos que o acento circunflexo diferencial foi abolido em 1945 em Portugal e em 1971 no Brasil. Parece muito lógico mas obrigava a saber que “tôda” precisava de acento porque na América do Sul existe um pássaro chamado “toda” com “o” aberto. Safa!

--- Trema ---

No almanaque aparece a palavra “constituïção”. O trema sobre o “i” servia para indicar que o “u” e o “i” se separam na pronúncia.

Em “fluido” há ditongo, em “fluidez” não. Para indicar que nesta palavra o “u” e o “i” não se pronunciam juntos escrevia-se antigamente “fluïdez”, com trema sobre o “i”.

Os profetas da desgraça vêm sempre como um cataclismo qualquer reforma ortográfica. Pergunta-se: que mal resultou da abolição deste trema?

No Brasil usa-se o trema em palavras como “tranqüilo, onde serve para indicar que o “u” se lê. Deixará de se usar com a entrada em vigor do acordo ortográfico. Em Portugal não se usa desde 1945.

--- Sciência ---

Ainda se usaria uns anos esta ortografia esquisita. Baseava-se na origem da palavra, mas representava uma enorme e escusada dificuldade para escrever sem erros. Se fôssemos a escrever as palavras de acordo com a sua origem ou etimologia ainda hoje teríamos “rheumatismo”. É pena que, além desta horrível ortografia, não tivéssemos acabado com a doença, ainda mais horrível. Há línguas como o inglês e o francês que mantêm estas ortografias complicadas. Temos de as suportar ao ler e escrever nessas línguas, mas em português foram felizmente postas de parte. Não interessam nada ao utilizador comum da língua.

--- Termos desportivos ---

- “Basket-ball” – Deu origem a “basquetebol”
- “Foot-ball” – Foi aportuguesado como “futebol”. O almanaque contém uma foto de “foot-ballistas portugueses em Amsterdão”. Leu bem - "foot-ballistas", uma palavara meio inglesa, meio portuguesa.
-“Golf” – Aportuguesado como “golfe”
-“Hockey” – Aportuguesado como “hóquei”
- “Crosss-country” – O almanaque explica que se trata da “corrida através dos campos”; hoje chamamos em Portugal a este desporto “corta-mato”. No Brasil usa-se a expressão inglesa.
-“Cross” – O “Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea”, também conhecido por “Dicionário da Academia” aportuguesou esta palavra como “crosse”, que significa o mesmo que “corrida de corta-mato”. “Crosse” é palavra frequentemente ouvida em noticiários desportivos.
-“Ski” – Foi aportuguesado para “esqui”
- “Rugby” – No Brasil traduziram por “rúgbi” atendendo à ortografia do termo inglês; em Portugal houve quem defendesse essa forma, mas o que se ouve e lê é “râguebi”, que atende à pronúncia do nome em inglês deste enérgico desporto.
-“Water-polo” – Hoje diz-se “pólo aquático”
-“Box” – Hoje é “boxe” e continua violento.
-“Tennis” – Aí pelos anos vinte do século passado o dicionário de Cândido de Figueiredo designava este desporto por “tênis”, forma que se usa no Brasil; nós por cá usamos a forma “ténis”. O par “ténis/tênis” e outros darão para grandes discussões num futuro artigo.
-“Équipe” – Termo francês, que foi aportuguesada como “equipa” e “equipe”. A segunda forma já foi mais usada em Portugal. No Brasil “equipe” é a forma usada.

(Continua)
publicado por João Manuel Maia Alves às 07:57
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1 comentário:
De João Carlos Reis a 23 de Junho de 2015 às 05:37
Prezado João,
«... carradas de ortografias esquisitas como archipélago ou rhetórica.» Mas esquisita porquê??? É "esquisita" porque você hoje vive outra realidade... mas se vivesse a realidade daquela altura, o "esquisito" era escrever "arquipélago" ou "retórica"... o que eu quero dizer com isto é que em tudo o que fazemos devemos procurar a Excelência e nivelamento por cima e não por baixo, que é o que se tem feito ao nosso Idioma.
«Parece muito lógico mas obrigava a saber que tôda precisava de acento porque na América do Sul existe um pássaro chamado toda com o aberto. Safa!» Safa??? Mas "safa" porquê??? Por mim ainda bem que está a haver toda esta discussão à volta do aborto, pois doutra maneira eu não sabia, por exemplo, que existia uma ave com o nome de "toda". Agora suponhamos que o nome dessa ave (quem diz o nome dessa ave, pode dizer outra coisa qualquer que não é comum saber-se e que tem uma grafia igual a outras coisas mais comuns) aparecia num qualquer texto... Sem acentuação, como é que eu iria adivinha a correcta pronúncia do vocábulo??? Mas eu compreendo perfeitamente o seu "safa"... é de pessoas cujo saber ocupa lugar e, como tal, quanto menos souberem, melhor...
«Os profetas da desgraça vêm sempre como um cataclismo qualquer reforma ...» Hummm... e os velhos do Restelo que fazem com que o actual aborto faça o Português (sim, com inicial maiúscula para o Engrandecer, Enobrecer e Prestigiar, como preconiza o Formulário Ortográfico de 1943 no 6º ponto da sua Base XVI, bem como o Acordo Ortográfico de 1945 na sua Base XLII e não com reducentes iniciais minúsculas como defende o acordo de 1990 para desprestigiar e nivelar por baixo) retroceder ao Português dos séculos XIV e XX são o quê??? Além do mais: buscar-se a Excelência é ser-se profeta da desgraça???
«Pergunta-se: que mal resultou da abolição deste trema?» Resposta: tirando o facto de se ficar sem saber a correcta pronúncia de muitas palavras e, a partir daí, a deturpação da fonética dessas palavras, não resultou mais mal nenhum... que eu saiba...
«Há línguas como o inglês e o francês que mantêm estas ortografias complicadas.» Pois... mas eu, na minha ignorância, só gostaria de saber uma coisa: quem é que comete mais erros ortográficos ao escrever: quem tem a «ortografia complicada» ou quem tem a «ortografia simplificada»???
Quanto aos nomes dos desportos, só tenho a dizer o seguinte: tenho é pena que só se aportuguesassem os nomes e não tenham arranjado palavras Portuguesas para o nome desses desportos...


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