Quarta-feira, 17 de Novembro de 2004

Género e sexo

Em Moçambique entre 1997 e 1999 ouvi muitas vezes a palavra “género” em frases em que estava habituado ao termo “sexo”. Eram frases do género “discriminação de género” em vez de “discriminação de sexo”. Não escondo a surpresa que tais frases me provocavam. Para mim “género” tinha a ver com a gramática – a atribuição de masculino e feminino a substantivos e adjectivos. Nesses anos descobri que também em Angola e S. Tomé se dava à palavra “género” a mesma utilização, no que me parecia ser uma perversão da língua portuguesa.

Depois de voltar de Moçambique descobri que também em Portugal a palavra “género” começava, em certos casos, a substituir o termo “sexo”.

Diz o “Dicionário de Sociologia”, editado em 1990 por “Publicações D. Quixote”, que a palavra “género” tem, relativamente à palavra ‘sexo’ a vantagem de “sublinhar a a necessidade de separar as diferenças sociais das diferenças biológicas”. Quer dizer, “género” refere-se ao papel que homens e mulheres têm na sociedade e “sexo” refere-se a características biológicas, isto é físicas. O mesmo dicionário diz também estar o termo “género” em vias de entrar no vocabulário da sociologia francesa para “designar o que tem a ver com a diferenciação social dos dois sexos”. Na sociologia anglo-saxónica já tinha entrada há mais de uma década.

Já tinha reparado neste uso da palavara “género”? Se não, saiba que recentemente o Presidente Jorge Sampaio falou de “discriminação de género”. Ou talvez tenha falado de “distinção de género” – para o caso tanto faz. Pouco tempo depois o Expresso publicou um anúncio da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra do Segundo Curso de Pós-Graduação em “Direito da Igualdade de Género”. Não se trata dum curso sobre assuntos gramaticais. Aliás, o mesmo anúncio lembra que a constituição estabelece que o estado deve promover a igualdade de homens e mulheres.

A palavra “sexo” pode ser equívoca, mas haveria mesmo necessidade de se usar “género” para designar as diferenças sociais de homens e mulheres? A Real Academia Espanhola já se manifestou contra o seu uso em espanhol. As suas opiniões são altamente respeitadas nos muitos países de língua castelhana.

Temos que nos habituar ao uso da palavra “género” em muitas frases em que estávamos habituados a ler ou a ouvir “sexo”. Parece-me que não há nada a fazer contra isso porque:

1) Adoramos imitar os outros, com ou sem justificação
2) Até a Universidade de Coimbra e o presidente da república usam “género” com o significado referido
3) Não temos uma instituição com o peso da Real Academia Espanhola a reprovar o seu uso.

Por ora, está muito limitado o referido uso da palavra “género”. A maior parte dos portugueses ainda não reparou nele. Será que se vai generalizar? O futuro o dirá.
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:10
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