Quarta-feira, 17 de Agosto de 2005

Fim duma obrigação

Por que razão se coloca um acento agudo sobre um “a”? Umas vezes para o abrir, como em “pá”. Outras vezes, o acento, além de abrir o “a”, indica que a sílaba é tónica. É o caso de “rápido”. Vamos recordar que o acento agudo ainda tem outra função.

Sem fugir ao tema, qual o tempo de “fugimos”? Depende. Pode ser o presente, como em “fugimos agora antes que seja tarde”. Pode ser o passado, como em “fugimos há pouco dum incêndio”. Se se tratar dum verbo terminado em “ar”, como “andar”, a distinção de tempo das formas correspondentes a “fugimos”, faz-se por meio dum acento agudo. Escrevemos, por exemplo, “hoje andamos aqui a trabalhar” e “ontem andámos dez quilómetros a pé”.

O acento agudo em palavras como “andámos”, “viajámos”, “conversámos” nem sempre abre o respectivo “a”. Realmente, existem zonas de Portugal onde as pessoas dizem frases do género “ontem ‘andâmos’ dez quilómetros a pé”. Basta ouvir com atenção na televisão pessoas do norte de Portugal para vermos que assim é. Quer dizer, estas pessoas são obrigadas a pôr um acento agudo num “a” que tem uma pronúncia fechada!

Querem apostar que se nestes casos o “a” fosse fechado em Lisboa e Coimbra e aberto no Porto, o acento não se usava? Onde estão ou estavam as pessoas que têm decidido estas coisas? Em Lisboa e em Coimbra, considerando-se o modelo a seguir pelas pessoas das outras regiões.

Na minha opinião este acento é horroroso. Dizer “andâmos” e ter de escrever “andámos” acho uma imposição insuportável.

No Brasil este “a” da primeira pessoa do plural dos verbos terminados em “ar” é fechado como no norte de Portugal. Nota-se bem nas telenovelas. Não sei se é sempre fechado, mas nunca ouvi um brasileiro abri-lo. Na ortografia usada no Brasil o “a” não leva nenhum acento.

Os negociadores do acordo ortográfico resolveram esta questão tornando o acento agudo facultativo nestes casos. Talvez ele devesse simplesmente desaparecer, mas ter deixado de ser obrigatório em Portugal foi, na minha opinião, um progresso. Foi, a meu ver, o fim duma injustificada imposição.


Autor deste artigo: João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 16:30
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