Quarta-feira, 20 de Julho de 2005

Português – língua variada

A maioria das pessoas pensará que a língua portuguesa tem duas variedades: a brasileira e a falada em Portugal e nos PALOP e Timor. Pensa também que, com diferenças de sotaque, o português falado nos PALOP e em Timor vai manter-se igual ao de Portugal. Acha, igualmente, que os PALOP e Timor seguirão sempre Portugal no que diz respeito à ortografia e às normas gramaticais da língua portuguesa. Alguns acham até que somos donos da língua e os outros utilizadores devem seguir sempre o que for decidido ou usado em Portugal.

Em 1997 parti para Moçambique com muita curiosidade a respeito da situação e do papel da língua portuguesa nesse país.

Verifiquei não haver quaisquer intenções de substituição do português pelo inglês, mas reparei que a língua de Camões assume em Moçambique características próprias.

Em Moçambique existe em formação uma variedade da língua portuguesa, sendo já visíveis alterações em relação ao português europeu, as quais penso que estão para ficar, apesar de a televisão e a rádio portuguesas estarem presentes em força no país. Esta variedade da língua tem sido objecto de estudos como o da Prof. Perpétua Mendonça, autora, entre outras obras de “Português de Moçambique – Uma Variedade em Formação”. A expressão “Português Europeu” usa-se em Moçambique para designar o Português de Portugal. Para designar a variedade europeia e a moçambicana da língua usam-se as abreviaturas PM e PE.

Depois de dois anos em Moçambique, depois de ouvir muitas vozes dos PALOP nos telejornais da RTP-África e de ter visitado Angola, é claro para mim que não existe uma língua portuguesa mas várias, com um uma base comum e mutuamente compreensíveis mas com normas diferentes, algumas de momento ainda não escritas, ma mais cedo ou mais tarde traduzidas em gramáticas das diversas variantes.

As particularidades do Português de Moçambique não se limitam ao vocabulário, onde surgiram interessantes neologismos como “desconseguir”. Incluem alterações sintácticas, como, por exemplo, na frase “Isso deveria se fazer hoje”. Reparei, no entanto, depois de voltar de Moçambique, que essas formas também se ouvem em Portugal, mas em Moçambique ouvem-se e escrevem-se. Há verbos intransitivos usados como transitivos, como em “As cheias perigaram a nossa situação económica” ou “O treinador proliferou o meio-campo de jogadores”. Usa a voz passiva com o papel de sujeito indeterminado, como “Assim é que eu fui explicado” ou “Sou descontado no banco todos os meses”, em vez de “Assim é que me explicaram” e “Descontam-me no banco todos os meses”. É frequente uma frase como “Inicia aqui o programa dedicado à mulher” em vez de “Inicia-se aqui o programa dedicado à mulher”. Aliás, esta construção é muito vulgar noutros países lusófonos de África. Frases como as apontadas ouvem-se da boca de pessoas cultas, algumas das quais educadas no tempo do sistema colonial.

Estas conclusões, talvez chocantes a princípio, não devem surpreender. Todas as línguas faladas em diferentes países e continentes têm variantes. Não vemos isso reflectido em aplicações informáticas em que se pode escolher entre vários tipos de espanhol ou de inglês?

Temos de nos preparar para a ideia de que, à semelhança do Brasil, Angola, Moçambique e outros países terão variedades do português com diferenças mais ou menos profundas em relação ao português europeu, as quais se poderão traduzir em normas gramaticais próprias. Também temos de nos preparar para a ideia de que esses países não nos considerem como guias linguísticos ou donos da língua portuguesa.

Sei que isto é um osso duro de roer para muita gente, mas, goste-se ou não, trata-se dum processo imparável.

Voltaremos ao assunto.



Artigo escrito por João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 16:51
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